Se o sistema financeiro brasileiro fosse um condomínio, o caso do Banco Master seria aquele momento em que o síndico vê o prédio pegando fogo e decide abrir uma assembleia para discutir a cor do extintor.
Segundo a reportagem da revista piauí (“A contaminação”, fev/2026), o ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, adotou uma estratégia digna de manual de procrastinação institucional: ver o problema crescer, mandar ofício, esperar, mandar outro ofício… e torcer para o problema se resolver sozinho. Spoiler: não resolveu.
Enquanto isso, o Banco Master, comandado por Daniel Vorcaro, crescia como bolo de fermento vencido — parecia grande, mas por dentro era só ar.
O banco central em modo “Depois a gente vê”
Documentos internos indicam que o BC identificou problemas no Master já em 2019. Foram 18 ofícios pedindo ajustes. Dezoito.
Na prática, virou correspondência passivo-agressiva:
“Por favor, corrija.”
“Ok.”
Não corrige.
E o BC:
“Tudo sob controle.”
Isso lembra aquele mecânico que diz “dá pra rodar mais um pouco” quando o motor já está soltando fumaça azul.
A bomba relógio com prazo estendido
Quando a crise de liquidez ficou impossível de esconder, em 2024, em vez de intervenção, veio a solução clássica do Brasil: empurrar o problema para frente.
Campos Neto concedeu quatro meses para o banco “arrumar a casa”.
Era como dar prazo para um castelo de cartas virar prédio de concreto.
Depois veio a tentativa de transferir carteiras problemáticas para o BRB, numa operação de R$ 12,2 bilhões. Tradução simples: socializar o risco e privatizar a dor de cabeça.
Portas giratórias – O esporte favorito de Brasília
A cereja do bolo veio depois: terminado o mandato no Banco Central, Campos Neto virou executivo do Nubank, plataforma que vendeu CDBs do Master para investidores usando a proteção do FGC como argumento.
É quase poesia econômica: o regulador vira executivo, o risco vira produto, e o investidor vira estatística.
Coincidência? Talvez.
Constrangedor? Bastante.
A herança: Uma bomba no colo do sucessor
Quando Gabriel Galípolo assumiu o BC, encontrou um cenário digno de filme de desastre financeiro:
o banco tinha apenas R$ 4 milhões em caixa para compromissos bilionários.
Quatro milhões.
Para um banco.
Isso não é liquidez — é troco de padaria.
A liquidação definitiva veio em novembro de 2025, confirmando que muitas “soluções de mercado” eram sustentadas por ativos inexistentes.
O personagem das sombras: Nelson Tanure
A reportagem também aponta o empresário Nelson Tanure como mentor informal das operações.
O Master injetava recursos em empresas em dificuldade (Gafisa, Light, Oi), inflando balanços.
Quando as empresas quebravam, o prejuízo ficava no banco.
O dinheiro, convenientemente, já tinha evaporado.
Um truque antigo do capitalismo brasileiro: privatiza o lucro, estatiza o desastre.
O resumo da ópera
O caso Master virou a maior ciranda financeira desde os anos 80 porque o regulador decidiu ser terapeuta do mercado em vez de fiscal.
A lógica parecia ser: “Se eu não intervir, não é problema meu.”
Só que o rombo cresceu até ameaçar quase metade do patrimônio do FGC, afetando mais de 1 milhão de investidores.
Nada como estabilidade financeira baseada em esperança e PowerPoint.
Se tem uma lição nisso tudo, é simples: no Brasil, crise bancária não nasce do nada — ela é cultivada com paciência burocrática.
E quando explode, sempre aparece alguém dizendo: “ninguém poderia prever”.
Poder, podia.
Só não quiseram.



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