Demitidos de Collor: 35 anos na fila do “aguarde sentado” (2)

Quando o Estado erra, pede desculpa em câmera lenta — e ainda manda o trabalhador embora de novo

Mais de três décadas depois das demissões em massa no governo Collor, apenas cerca de 10% dos servidores retornaram ao serviço público.

Enquanto muitos ainda lutam por reparação, o Estado agora oferece um PDI para anistiados idosos — uma solução que soa menos como justiça e mais como “encerra essa história logo”.

A demissão foi rápida, a reparação virou novela

O governo Collor (1990–1992) demitiu cerca de 120 mil servidores públicos numa mistura de “modernização administrativa” com “vamos ver no que dá”.

Deu errado. Muito errado.

A própria Justiça e o governo seguinte reconheceram arbitrariedades.

Veio então a Lei 8.878/94, criada para reintegrar os demitidos.

Na prática?

O Estado colocou milhares de pessoas na geladeira administrativa por décadas.

Resultado: apenas 10% — algo entre 12 mil e 13 mil servidores — conseguiram voltar ao serviço público até 2026.

O resto continua esperando.

Basicamente, um INSS emocional sem perícia e sem previsão de pagamento.

O custo humano que ninguém coloca na planilha

Quando o Estado erra, não é só um CPF que sofre — é uma família inteira.

Ao longo dessas décadas:
servidores entraram em depressão
casamentos acabaram
alguns recorreram ao alcoolismo
houve casos de suicídio

Enquanto isso, a burocracia brasileira seguiu no modo padrão:
carimbo, recurso, espera, carimbo, recurso, espera.

Se o sofrimento pagasse imposto, já teria resolvido o déficit fiscal.

A reintegração que veio pela metade

Mesmo quem voltou encontrou outro problema clássico do serviço público brasileiro:
reintegração sem reparação real.

Entre os principais problemas hoje:
defasagem salarial
falta de enquadramento no Regime Jurídico Único (RJU)
processos judiciais intermináveis
negociações de reajuste arrastadas

O reajuste previsto para 2026? 5%.

Depois de 35 anos, isso é praticamente uma gorjeta institucional.

Negociações do funcionalismo —

Quando a solução do estado é “Obrigado, pode ir embora”

Agora vem o capítulo mais brasileiro dessa

história.

Em 2026, a Câmara aprovou mudanças criando um Programa de Desligamento Incentivado (PDI) para anistiados com 75 anos ou mais.

Sim.

Depois de décadas esperando reparação, o Estado basicamente diz:

“Obrigado por sobreviver até aqui. Agora vamos encerrar isso.”

O PDI passa a valer a partir de abril de 2026.

Projeto relacionado:
PL 5874/25
origem no PL 6170/25

A burocracia que envelheceu junto com as vítimas

O mais irônico — ou cruel — é que muitos dos demitidos envelheceram esperando a reparação.

Hoje ainda existem:

ações judiciais em andamento
discussões sobre aposentadoria especial
pressão da Condsef/Fenadsef
pedidos de reabertura de prazo de readmissão

Ou seja:
o problema não acabou — só ficou velho.

O estado errou – E ainda não pagou a conta

Essa história revela um dos grandes defeitos estruturais do
Brasil:

O Estado é rápido para punir,
lento para corrigir,
e quase imóvel para reparar.

Demorou 35 anos para chegar a uma proposta que parece mais um encerramento administrativo do problema do que justiça.

Se fosse um processo comum, já estaria prescrito.

Como é o Estado contra o cidadão, virou patrimônio histórico da burocracia nacional.

Conclusão

Os demitidos do governo Collor não viraram apenas uma pauta sindical.

Viraram um símbolo.

Símbolo de como o Brasil trata quem o próprio Estado prejudica.

E a pergunta que fica é simples:

Se a reparação demora mais que uma geração,
ainda é justiça — ou só um pedido de desculpa protocolado?

Avatar photo

Bituca Salim

Bituca Salim é comunicador político independente que traduz política, economia e poder em linguagem direta e sem maquiagem. Entre humor ácido e debochado e dados reais, expõe hipocrisias, critica privilégios e provoca debate. Não pratica neutralidade falsa e assume lado: o de quem vive do trabalho, não do rentismo. Informar, cutucar e tirar da zona de conforto é o objetivo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

0
Adoraria saber sua opinião, comente.x