Data Centers no Brasil: Potencial, Riscos e o Debate Necessário

O Brasil se torna alvo de bilionários investimentos em infraestrutura digital. Mas o que essa expansão significa para água, energia e soberania?

O Brasil no centro da corrida digital global

O Brasil ocupa posição estratégica na expansão global de data centers. A combinação de matriz energética renovável, mercado interno robusto e localização geográfica privilegiada pela conectividade de cabos submarinos atrai investimentos bilionários ao país. A consultoria Aurora Energy Research projeta que a capacidade instalada nacional pode quadruplicar até o início da próxima década, ultrapassando quatro gigawatts.

Hoje, o país conta com cerca de 205 data centers em operação, além de 22 pedidos para novas instalações. Empresas como Ascenty, Scala, ByteDance e Ada Infrastructure lideram uma onda de investimentos que promete transformar o Brasil em hub digital da América Latina. A Scala, por exemplo, planeja construir em Eldorado do Sul o maior complexo de processamento de dados da região, com investimento inicial de R$ 3 bilhões.

O apetite energético das máquinas

A demanda por eletricidade desses empreendimentos é proporcional à sua escala. Um data center dedicado à inteligência artificial pode consumir entre 60 e 1.000 kilowatts por rack, o equivalente a até 250 chuveiros ligados simultaneamente. O complexo que a Ascenty constrói em Sumaré, próximo a Campinas, terá capacidade inicial de 60 megawatts, podendo chegar a 160 MW. Já o GRU10, da Ada Infrastructure em Franco da Rocha, prevê 300 MW em subestações próprias.

Segundo estudo da Fundação Getulio Vargas, a capacidade instalada poderia saltar de cerca de 1 GW para 13,7 GW até 2035, com investimentos estimados entre R$ 2,3 trilhões e R$ 3,7 trilhões. Esse volume supera a capacidade de gerações inteiras de hidrelétricas. A Scala AI Cityalone demandará 4,75 GW em seu pico operacional, mais que a usina de Jirau, que alimenta 40 milhões de pessoas.

O consumo de água que poucos veem

Menos visível, mas igualmente crítico, é o consumo hídrico. Data centers utilizam sistemas de resfriamento que podem operar em circuito fechado ou aberto. No primeiro, cada megawatt de potência exige cerca de 23 mil litros de água confinada, com reposição anual de 10%. No segundo, o consumo chega a 1,5 mil litros por megawatt a cada hora. Até 2024, a potência instalada no Brasil era de 843 MW. As projeções indicam 3.144 MW até 2031.

Com essa expansão, o volume de água consumida pelo sistema de circuito aberto seria suficiente para abastecer uma cidade de 754 mil habitantes. A directora do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Golestan Radwan, sintetizou o problema: “Data centers consomem muita água. Isso é um problema porque a escassez de água está se tornando uma das principais razões de conflitos no mundo”.

Crise hídrica e expansão desregulada

O Brasil enfrenta uma crise hídrica grave, com reservatórios nos níveis mais baixos dos últimos dez anos. Em 2025, 307 municípios gaúchos declararam situação de emergência. O Rio Grande do Sul ocupa a segunda posição no ranking de estiagens do país. O Uruguay viveu em 2023 uma crise tão severa que a população precisou ser abastecida com água salgada, enquanto protestava contra o Google, que mantém um data center no território.

É nesse contexto que a expansão desregulada dos data centers se mostra alarmante. Não existe uma regulação estadual ou federal robusta para orientar a instalação desses empreendimentos. As regras são definidas município a município, o que abre um vácuo perigoso. Pressionadas por promessas de investimento e empregos, prefeituras fecham os olhos para os impactos ambientais, especialmente sobre a água.

Sob medida: como os projetos se adaptam à legislação

No caso da Scala AI City, em Eldorado do Sul, a prefeitura aprovou uma lei municipal dedicada exclusivamente ao empreendimento. A legislação transformou zona rural em perímetro urbano, dispensou o Estudo de Viabilidade Urbanística e criou um licenciamento “simplificado e autodeclaratório”. Não há sequer menção a Estudos de Impacto Ambiental. A própria empresa reconhece que os 4,75 GW representam “demanda de energia em pico operacional”.

Na mesma linha, a ByteDance constrói seu complexo no Ceará, em zona de livre comércio, para reduzir custos de importação. Pesquisadores alertam para o padrão de atuação dessas empresas: narrativas de desenvolvimento tecnológico e empregos, mas sem transparência, sem consulta às comunidades e sem debates públicos sobre os impactos reais.

Soberania digital: quem controla os dados?

A questão vai além do meio ambiente. A professora Helena Martins, da Universidade Federal do Ceará, alerta para a dependência tecnológica: “Pela legislação norte-americana, se uma empresa está instalada em outro país, ela tem obrigação de ceder os dados para o governo dos Estados Unidos, caso ele queira”. Para ela, o Brasil se mantém como “provedor de matéria-prima ou de mão de obra barata” num modelo que aprofunda desigualdades globais.

O secretary-executivo do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, Luis Fernandes, é direto: “Essa é nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital”. A expansão chinesa no Brasil, com ByteDance e Alibaba avaliando operações, insere o país numa disputa geopolítica entre Washington e Pequim, enquanto as empresas estrangeiras extraem valor dos dados produzidos aqui.

O vazio regulatório como política

O Brasil não possui diretrizes nacionais para data centers nem regras específicas de licenciamento ambiental. A Fepam, órgão ambiental do Rio Grande do Sul, já sugeriu a criação do “ramo data center” no ordenamento legal, mas não há previsão de conclusão. As empresas usam desse vácuo para enquadrar empreendimentos como simples obras de construção civil, evitando avaliações rigorosas.

O Redata, projeto de lei que cria incentivos fiscais para o setor, tramita no Senado sem definição. O principal ponto de discusão é o regime energético: setores ligados ao gás natural pressionam pela inclusão dessa fonte como elegível aos benefícios, enquanto ambientalistas defendem que o programa deveria fortalecer exclusivamente a expansão renovável e os investimentos em armazenamento energético.

Resistências e a luta por participação

As comunidades afetadas não permanecem inertes. O povo indígena Anacé, no Ceará, realiza protestos contra o data center do TikTok. “Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade”, afirma a liderança Andrea Coelho. No Rio Grande do Sul, agricultores familiares, assentados da reforma agrária e aldeias indígenas não foram sequer consultados sobre o projeto da Scala.

Organizações da sociedade civil têm buscado alternativas no Judiciário e em instâncias internacionais. O relator especial da Comissão Interamericana de Direitos Humanos já recebeu denúncias e recomendou moratórias temporárias, ou seja, que os países parem, repensem e discutam antes de expandir esses empreendimentos sem critérios claros.

Soluções possíveis: regulação, eficiência e soberania

Especialistas e pesquisadores apontam caminhos. A professora Helena Martins defende que “a forma como esse modelo está sendo implementado nos mantém nesse lugar de desigualdade”, e propõe valorização de saberes historicamente marginalizados, incluindo tecnologias indígenas que “poderiam resolver o problema de água e saneamento”.

A directora Cynthia Pícolo, do Laboratório de Políticas Públicas e Internet, sugere que “deveria ser obrigatório um estudo de impacto detalhado” para cada empreendimento. O professor Edson Prestes, da UFRGS, questiona a própria escala proposta: “Nós podemos ter data centers para garantir a soberania de dados, mas não precisamos de um data center tão poderoso para isso”.

O BNDES financia desenvolvimento de data centers modulares nacionais, com eficiência elétrica superior a 99,5% e sistemas integrados de climatização. A iniciativa da ALGcom, em Caxias do Sul, visa reduzir em até 50% o prazo de implantação e diminuir a dependência de fornecedores estrangeiros. Esse caminho pode combinar expansão digital com soberania tecnológica.

O futuro que escolhemos construir

A expansão de data centers no Brasil é uma realidade que não recuará por conta de alertas isolados. O país tem vantagens estruturais inegáveis para ocupar posição relevante na economia global de dados. A questão central não é ser contra a tecnologia, mas exigir que o desenvolvimento digital não sacrifique recursos essenciais em nome do lucro de poucos.

Água não é um insumo infinito. Energia não deveria ser tratada como commodity invisível. Dados não podem continuar fluindo do Brasil para o exterior sem que a população compreenda os termos dessa troca. Como alertou a especialista da ONU Golestan Radwan: “Devemos falar sobre como garantir que a transformação digital seja ambientalmente sustentável”.

É possível ter tecnologia a serviço da vida. Para isso, necesitamos de regulação robusta, transparência, participação popular e uma agenda de lutas articulada em múltiplas dimensões e escalas. Sem isso, corremos o risco de transformar o avanço digital num retrocesso socioambiental, onde máquinas funcionam enquanto populações ficam sem torneiras.



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